Aprendizado contínuo

Alta competitividade do mercado motiva crescimento da educação corporativa na saúde suplementar

Diversas pesquisas apontam a baixa produtividade do trabalhador brasileiro como um empecilho ao crescimento sustentado do país e à sua competitividade no comércio global. Em 2018, dois estudos confirmaram essa deficiência.

Segundo levantamento do Banco Mundial, a produtividade do trabalhador brasileiro aumentou 17% nos últimos 20 anos, enquanto esse aumento foi de 34% em países de alta renda.

Já um estudo feito pela Fundação Getulio Vargas (FGV) mostrou que um brasileiro gera, em média, US$ 16,80 por hora trabalhada, enquanto um alemão produz, em média, US$ 64,40 por hora, isto é, quase quatro vezes mais. Esse resultado colocou o Brasil na 50ª posição em uma lista que inclui 68 países.

“O grau de qualificação da mão de obra, a capacidade de inovar e de difundir novas técnicas são fundamentais para a produtividade do trabalho crescer”, diz Tiago Barreira, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) e um dos autores do estudo.

No ambiente de negócios interno, a competição também é cada vez maior. E, para se destacar frente à concorrência, muitas empresas brasileiras estão investindo em programas estruturados de educação corporativa, visando o desenvolvimento de competências gerais e específicas do seu ramo de atividade.

O estudo Educação corporativa no Brasil – Habilidades para uma nova era do conhecimento, feito pela consultoria Deloitte em 2016, ouviu 178 profissionais de empresas de médio e grande porte e apresentou uma radiografia dessa atividade no país, mostrando que cerca de um terço das companhias possui uma universidade corporativa, número 14% maior que em 2014.

“O estudo mostra que, apesar de a crise econômica afetar investimentos em educação no curto prazo, é crescente a intenção das empresas em priorizar essa prática nos próximos anos”, diz Marcos Braga, diretor da Deloitte Educação Empresarial.

Outra conclusão importante do estudo é que o modelo presencial de ensino ainda predomina em relação ao sistema à distância, sugerindo que as organizações estejam preservando os investimentos para a implantação de plataformas robustas de educação à distância para um próximo momento. Também ficou constatada a ênfase nos conhecimentos denominados como hard skills, aqueles relacionados diretamente ao exercício da função profissional.

DOSES DE CONHECIMENTO

Se o mercado de educação corporativa está em crescimento no Brasil, na saúde suplementar não é diferente. Operadoras, hospitais, laboratórios e demais empresas do setor adotam diferentes caminhos para perseguir um mesmo objetivo: aumentar a qualificação dos seus funcionários, e, consequentemente, o desempenho no mercado.

EDUCAÇÃO CORPORATIVA NO BRASIL
Principais características
  • 32% das empresas têm universidades corporativas
  • 64% têm equipes dedicadas à educação corporativa
  • 65% declararam possuir prédio, andar ou sala exclusivos na empresa para que as aulas e cursos sejam ministrados
  • 60% aplicam até 1% do faturamento em projetos de educação corporativa
  • 26 horas anuais é a média geral de treinamento por profissional
Fonte: Educação corporativa no Brasil – Habilidades para uma nova era do conhecimento (2016), Deloitte/Grupo DMRH

No modelo mais tradicional, indicado principalmente para empresas de pequeno e médio porte, o empregador financia cursos técnicos, universitários e de pós-graduação em instituições de ensino já existentes no mercado. Posteriormente, uma evolução desse modelo fez com que consultorias e universidades passassem a oferecer cursos customizados de acordo com as necessidades de cada cliente. Por exemplo: se uma companhia precisa melhorar seus processos operacionais, ela pode contratar fornecedores de soluções específicas para esse tipo de treinamento.

A universidade corporativa, por fim, surgiu como um modelo mais sofisticado, em que uma empresa ou associação empresarial cria uma estrutura própria para atender às necessidades específicas da organização ou do segmento econômico ao qual pertence. Assim, desenvolve conteúdos, organiza cursos e prepara docentes para formar especialistas naquele determinado segmento.

Normalmente, uma universidade corporativa se dirige a todo o corpo de uma organização, com cursos específicos para a liderança, e outros concebidos para outros segmentos, como os operacionais. Assim, de acordo com o perfil funcional de cada área, haverá necessidades específicas que podem ser organizadas no que se convencionou chamar de trilhas de aprendizado. Cada funcionário pode ter, dessa forma, um desenvolvimento contínuo das suas competências.

“Vale a pena para uma organização criar uma universidade corporativa porque existem incentivos fiscais, e isso vai permitir um custo menor do que seria adquirir cursos no mercado. Por outro lado, há um desafio muito grande que é fazer a gestão de um negócio que não é o core business dela”, diz Raquel Marimon, presidente da consultoria Strategy, que fornece ao mercado cursos de capacitação em regulamentação, precificação e garantias financeiras. “Então, é sempre uma decisão muito difícil. Uma universidade corporativa só vai de fato compensar quando a organização tiver um número de funcionários elevado e um orçamento significativo para arcar com o financiamento de cursos de especialização e treinamento, passando a usar parte dele para subsidiar, fundar e gerir essa nova estrutura.”

Para Marimon, apesar desses desafios, a criação de universidades corporativas é uma tendência na saúde suplementar por causa do movimento de consolidação de diferentes empresas em grupos empresariais.

“Recentemente o Governo Federal suspendeu a abertura de novos cursos de medicina por conta da baixa qualidade do ensino”, diz o presidente da Universidade Corporativa Abramge (UCA), Carlito Marques. “As universidades corporativas, especialmente as voltadas ao setor de saúde, estão preenchendo esse vácuo fornecendo um aprendizado de excelência e, principalmente, aprimorando conhecimentos específicos à natureza da área almejada, de acordo com as perspectivas profissionais de cada indivíduo, expandindo a capacidade de trabalho em equipe e desenvolvendo suas habilidades.”

DIFERENTES MODELOS

Uma das pioneiras no mercado da saúde suplementar, a Universidade Corporativa Abramge (UCA) surgiu, oficialmente, em 1999, como uma evolução de uma série de seminários promovidos pela Abramge-SP na segunda metade da década de 1990. Os temas abordados naquela fase embrionária eram importantes para o momento do setor, como precificação, gestão de custos, marketing e, a partir de 2000, as regras da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Como a maioria dos gestores de planos de saúde na época eram médicos, esses conteúdos foram bem recebidos pelo mercado.

No ano de fundação da UCA também foi iniciado o primeiro MBA de Gestão de Planos de Saúde do país, realizado em parceria com o Centro Universitário São Camilo e reconhecido como curso de pós-graduação lato sensu pelo Ministério da Educação. Desde então, mais de 400 profissionais obtiveram esse título. Em 2005, com o crescimento de uma nova visão sobre a importância da promoção de saúde e qualidade de vida nas empresas, superando a visão de tratamento apenas, a UCA, em parceria com a Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), lançou o MBA de Gestão de Promoção de Saúde e Qualidade de Vida nas Organizações, no qual já se formaram cerca de 250 executivos. Há três anos a entidade iniciou o Curso Excelência em Gestão de Operadoras Odontológicas com uma média de 50 alunos por edição. Além disso, a UCA também promove seminários e workshops e oferece cursos in company, feitos sob medida para empresas interessadas.

PERFIL DO PÚBLICO-ALVO

“Recentemente fui procurado por entidades interessadas em entender a metodologia envolvida na organização da universidade corporativa. O trabalho é complexo: é preciso montar uma grade curricular adequada e contratar os melhores professores do mercado, o que envolve muito tempo e esforço”, diz Carlito Marques. “Mas a recompensa é gigantesca, pois haverá a certeza de ter feito um bom trabalho e, melhor ainda, ter treinado e disponibilizado um profissional de excelência. Conclusão: muitos presidentes e CEOs já fizeram nossos cursos.”

Uma das empresas a encarar esse desafio foi o Grupo Memorial, do Rio de Janeiro. Em 2011, a Universidade Corporativa Memorial foi criada diante da necessidade de padronização dos processos de gestão nas mais de 50 unidades ambulatoriais e hospitalares que fazem parte do grupo.

“Nossa universidade não possui caráter acadêmico. Nosso foco é puramente corporativo, ou seja, objetivamos a capacitação de gestores e funcionários a praticarem a gestão e o exercício profissional em conformidade com nossos padrões”, diz Denise Figueiras, diretora da Universidade Corporativa Memorial. “Entendemos que criar cultura nas empresas é importantíssimo. Afinal, nosso maior patrimônio é o capital intelectual.”

Para os gestores da organização, são oferecidos dois cursos: um dirigido aos prestadores de serviços médicos e outro concebido para atender às necessidades dos profissionais das duas operadoras de planos de saúde do grupo. Ambos os cursos têm duração de 90 horas e têm os módulos de gestão administrativo-financeira e gestão médica; o segundo curso possui, ainda, um módulo de gestão comercial.

Já para os demais profissionais do Grupo Memorial, que totalizam cerca de 4 mil pessoas, a universidade corporativa promove oficinas de capacitação com duração de um dia. Cerca de 50% dos funcionários já participaram dessas oficinas, com temas como segurança em tecnologia de informação, faturamento hospitalar e humanização no atendimento.

CARGOS DOS PROFISSIONAIS TREINADOS
(em % de respondentes; respostas múltiplas)
Principais características
Fonte: Educação corporativa no Brasil – Habilidades para uma nova era do conhecimento (2016), Deloitte/Grupo DMRH

Em São Paulo, o Hospital Sírio-Libanês foi um dos primeiros a ter seu próprio centro de estudos, o Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP), inaugurado em 1987 e que hoje atende a profissionais externos e seus próprios funcionários. São 22 cursos de especialização lato sensu, com 450 horas cada um, três cursos de aperfeiçoamento, cada um de 200 horas, e 69 cursos de aperfeiçoamento e reciclagem, com foco em gestão hospitalar e habilidades técnicas.

Além de profissionais do universo hospitalar, gestores de planos de saúde também são elegíveis a participarem de alguns cursos de gestão, como o de lean healthcare, que reúne conceitos de produtividade em centros de saúde.

Todos os cursos do Instituto de Ensino e Pesquisa possuem vagas reservadas para os funcionários do Hospital Sírio-Libanês, que também têm a seu dispor cursos específicos, como de habilidades técnicas, habilidades gerenciais, liderança e áreas assistenciais. Em 2017, 6.300 funcionários foram treinados.

Em fevereiro deste ano, o IEP fez um grande investimento em uma nova plataforma de ensino à distância, modalidade usada em 40% das atividades de ensino. Além de reunir em um único site todo o material de suporte dos cursos, a plataforma permite maior conectividade, incluindo chat com professores, transmissões ao vivo e acesso adequado em dispositivos móveis.
“Nosso próximo passo será oferecer treinamento também para os profissionais terceirizados”, diz Gisleine Eimantas, superintendente de Ensino do Hospital Sírio-Libanês.

Fonte: Revista Visão Saúde (visaosaude.com.br)

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