Como o mercado pode diminuir a fila de transplante?

Fonte: Folha de S. Paulo – 04/04/2017

A vida de pacientes com doença renal crônica no Brasil não é nada fácil. Exige seguidas sessões de diálise, com resultados -em termos de qualidade de vida e chances de viver mais anos- não muito animadores. Muitas vezes o transplante é a melhor saída. Há, entretanto, a necessidade de encontrar um doador compatível. Quando isso não é possível entre familiares e pessoas mais próximas, o paciente tem que se sujeitar à enorme fila de pessoas em busca de um rim. Boa parte delas morre antes de encontrar um doador.

Essa realidade não é muito diferente em outros países do mundo. Mas nos Estados Unidos, economistas e médicos arranjaram uma solução que permite conectar doadores e pacientes que necessitam de rins e, dessa forma, impulsionar o número de transplantes.

Um dos principais nomes dessa iniciativa é Alvin Roth, professor de Economia da Universidade de Stanford. Em 2012, Roth recebeu o Prêmio Nobel de Economia, entre outras coisas, pelas aplicações de seus achados teóricos para o caso de transplantes de rim.

A solução para impulsionar transplantes se dá via “mercado”. Você pode estar se perguntando: como assim, há compra e venda de rins? Não é proibido? Sim, em quase todo o mundo isso é vedado pelas leis. Só que o arranjo permite que se consigam os benefícios das interações de mercado sem que haja transações em dinheiro.

Pensemos, primeiro, como funcionaria um mercado de rins se o comércio de órgãos fosse legal e regulamentado.

Suponha que um indivíduo, José, precisa de um transplante de rim. Sua esposa, Maria, está disposta a doar-lhe um rim. Infelizmente, José e Maria são incompatíveis. Nesse mundo de comércio legal de órgãos, Maria poderia vender seu rim para outra pessoa que necessitasse e que fosse compatível com ela. Com o dinheiro, Maria poderia comprar um rim de outro indivíduo que fosse compatível com João, possibilitando o transplante do marido.

No fundo o que aconteceu foi uma troca: Maria utilizou o mercado para trocar seu rim por outro que seja compatível com o de José.

Agora podemos entender a perda de bem-estar provocada pela legislação que veda esse comércio. Como a transação é proibida, pessoas como João ficam sem o rim. Têm uma vida bem mais difícil e, provavelmente, mais curta.

Veja, não estamos advogando pela liberalização do comércio de órgãos. Apenas apontamos que a proibição traz custos. Essa situação é o que Alvin Roth chama de “mercados repugnantes”, ou seja, mercados nos quais a sociedade não tolera que ocorram trocas monetárias. Nós aqui do Porque.com.br também acharíamos muito estranho se rins tivessem etiquetas de preço.

A sacada de Roth e seus colaboradores foi utilizar o mecanismo de mercado, mas sem envolver dinheiro. Em vez de trocar um rim por dinheiro, para depois obter outro rim, o arranjo se dá trocas diretas: de rim por rim.

A ideia é a seguinte: monta-se um banco de dados, com pacientes e doadores. Para participar, o paciente precisa trazer um doador – que não tem que ser compatível consigo, mas que esteja disposto a doar um rim, mesmo que para um estranho. No exemplo acima, João é um paciente, e Maria a doadora que ele traz para o arranjo.

Busca-se então no banco de dados um par que esteja exatamente na situação oposta de João e Maria. Suponha que Lúcia precisa de um rim, e seu marido Luiz seja o doador por ela trazido. Lúcia e Luiz não são compatíveis entre si. Mas identificou-se que Luiz é compatível com João, e Maria é compatível com Lúcia.

Encontrou-se um emparelhamento: Maria doa seu rim para Lúcia, enquanto que Luiz doa seu rim para José. Note que ocorreu uma troca, da mesma forma que ocorreria se o comércio de órgãos fosse legalizado. Maria abriu mão de seu rim, para conseguir outro para seu marido. Só que, nesse arranjo, não há dinheiro envolvido. Temos um “mercado” atuando, mas sem que isso fira o senso ético das pessoas.

Imagine esse esquema em larga escala, com diversas pessoas participando. O número de transplantes realizados só tende a crescer, pois aumentam as chances de emparelhamento quando bastante gente entra no arranjo.

Nos Estados Unidos há iniciativas nesse sentido, que se desenvolveram ao longo dos últimos anos. Temos hoje trocas não apenas entre dois pares de pessoas, mas entre “cadeias” de doações, com vários pares ao mesmo tempo. Por exemplo, em 2015, uma “cadeia” envolveu 68 pessoas, viabilizando 34 transplantes.

Aqui no Brasil não há nada semelhante. Precisamos começar a falar sobre o assunto.

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