Coreia do Sul: 60 anos? jovens demais

Fonte: AFP. tradução de PAULO MIGLIACCI – Folha de S.Paulo

Do lado de fora, a temperatura cai à casa dos 10 graus negativos, em uma tarde gélida de segunda-feira, mas a pista de dança do Kukilgwan Palace está lotada de casais grisalhos sul-coreanos, dançando ao ritmo da disco music.

“Venho aqui todos os dias da semana, exceto sábados e domingos”, disse Jun Il-taek, 81, dançando sob os grandes globos espelhados e as luzes coloridas que decoram a discoteca no centro de Seul.

Jun era uma das cerca de 200 pessoas que ocupavam a pista – todas praticando o mesmo passo de dança, um tanto estático, envolvendo principalmente movimento vertical dos joelhos, acompanhado ocasionalmente por um giro esquisito em câmera lenta, para animar a festa. A natureza tépida da dança contrasta fortemente com o volume da música, que vai aos poucos tomando o elevador quando este se aproxima da discoteca, localizada no nono andar.

“Nada me mantém mais saudável do que a dança… não consigo viver sem esse lugar”, disse Jun, agilmente conduzindo sua parceira, uma mulher de 75 anos, em um rodopio. O veterano do exército sul-coreano é um dos milhares de aposentados de seu país que costumam dançar nas “colatecas” – discotecas especiais para idosos que vêm florescendo em todo o país.

A população da Coreia do Sul está envelhecendo rapidamente, o que pode causar sérios problemas para as autoridades, mas o pessoal da terceira idade está determinado a se divertir, dançando a velhice toda em casas noturnas que não permitem a entrada de pessoas com 50 anos por serem “jovens demais”.

As colatecas surgiram no final dos anos 90 como espaços de dança para adolescentes, nos quais a venda de álcool era proibida e só refrigerantes como a Coca-Cola estavam à venda. Mas elas logo saíram de moda junto à clientela jovem, que adotou cibercafés e casas de karaokê como pontos de encontro.

E com isso as colatecas se repaginaram para atender a uma faixa etária completamente diferente. “Elas se tornaram parques de diversões para pessoas com mais de 60 anos – e estas provaram ser clientes muito mais leais”, disse Lee Kwan-woo, proprietário do Kukilgwan Palace, fundado no começo dos anos 2000. “Aqui, eles podem se exercitar para manter a saúde, fazer novos amigos e desfrutar de alguma empolgação”, disse Lee, 70, antigo cantor da noite.

Os sul-coreanos com idade de 65 anos ou mais respondem por 13% da população, e essa proporção deve subir a mais de 40% em 2060. Atualmente, metade dessa faixa etária vive perto da linha da pobreza ou abaixo dela. As pensões magras e a falta de serviços sociais tornam a aposentadoria uma perspectiva assustadora.

Entre as pessoas com alguma renda disponível, o lazer é uma espécie de terra incógnita para a geração que transformou o país de uma terra destruída pela guerra em quarta maior economia da Ásia.

“Essa geração passou a vida toda trabalhando, trabalhando e trabalhando, e o lazer era considerado um privilégio da elite”, disse Hwang Nam-Hui, pesquisador do Instituto de Assuntos Sociais e da Saúde da Coreia do Sul.

“Muita gente enfrenta dificuldade para simplesmente relaxar e curtir a vida, depois da aposentadoria”, diz Hwang.

Lee, o proprietário do Kukilgwan Palace, diz que casas como a sua oferecem oportunidade vital de “descontração e diversão”.

O local atrai 800 clientes ao dia durante a semana e até 1,5 mil nos finais de semana. A entrada é barata, apenas mil won (80 centavos de dólar).

A maior parte do faturamento da discoteca vem da bebida e comida. As limitações físicas dos frequentadores são refletidas pelo horário de funcionamento, das 12h às 18h, o que segundo Lee representa uma boa solução já que “muitos dos frequentadores se sentem cansados demais à noite”.

Um armário de remédios muito bem abastecido contém produtos para combater diversas possíveis emergências, entre as quais quedas súbitas no nível de glicose no sangue.

“Se um freguês habitual subitamente para de vir, isso em geral significa que morreu”, disse Lee, que sente que comparecer aos funerais desses clientes fiéis é parte de seus deveres profissionais.

Muitos dos frequentadores são viúvos e viúvas buscando companhia e flertes amenos, e qualquer pessoa com menos de 60 anos é barrada porque “pode irritar os outros frequentadores e cortar o clima”, disse Lee. A vestimenta tende a ser conservadora, com homens de calça social e blazer e mulheres usando terninhos ou saias na altura dos joelhos.

Algumas mulheres ocasionalmente arriscam saias mais curtas ou um pouquinho de glitter, mas entre os homens a maior ousadia se limita a ir à discoteca com um chapéu fedora usado em ângulo maroto.

A cultura do país continua a ser muito confuciana, e a expectativa é de que os sul-coreanos idosos se comportem com moderação e dignidade. As colatecas são rejeitadas por muita gente que as encara como reprováveis pontos de paquera entre aposentados. O resultado é que frequentadoras como Han Keum-ok, 75, que vai ao Kukilgwan há 10 anos, mantêm segredo sobre seu passatempo.

“Meus filhos e netos pensam que saio com os amigos para um café ou almoço”, diz Han, que dança todas as tardes e depois volta para casa para cozinhar o jantar. Han diz que essa rotina a manteve saudável e feliz, enquanto muitos de seus amigos que não dançam sofrem de doenças ou depressão.

“Na minha idade, você nunca sabe quanto tempo mais viverá, e eu gostaria de aproveitar ao máximo o tempo que me resta de vida”, ela disse à AFP. “Mas não conte a pessoa alguma que venho aqui, porque muita gente acha as colatecas imorais”.

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