EUA confirmam vínculo entre infecção por zika e microcefalia

Fonte: O Estado de S. Paulo – 13/04/2016

Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) afirmou que ‘não há dúvidas’ de que má-formação está ligada à infecção de gestantes.

Por Paula Felix, Fábio de Castro e Lígia Formenti

O Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, afirmou que o vírus da zika provoca microcefalia e outras más-formações severas em fetos. A conclusão, que confirmou a tese de pesquisadores brasileiros, é de um relatório publicado nesta quarta-feira, 13, por cientistas da agência americana na revista New England Journal of Medicine.

Depois de fazer uma detalhada revisão de estudos recentes que têm mostrado crescentes evidências da associação entre o vírus e as más-formações, os cientistas do CDC afirmaram que “não há dúvidas de que o zika causa a microcefalia”. “Esse estudo marca um ponto de virada na epidemia de zika. Agora está claro que o vírus causa microcefalia”, disse o diretor do CDC, Tom Frieden, em comunicado à imprensa.

“Nós também estamos lançando mais estudos para determinar se as crianças com microcefalia nascidas de mães infectadas com o vírus zika são apenas a ponta do iceberg de uma série de outros danos ao cérebro e problemas de desenvolvimento”, afirmou Frieden.

A suspeita surgiu, no fim do ano passado, quando o Estado antecipou a decisão do governo federal de decretar emergência nacional, no dia 11 de novembro. No dia 28, estudo revelado pelo Estado confirmou a relação ao detectar o zika em um bebê do Ceará que nasceu com microcefalia.

Sem dúvida. Coordenador da Rede Zika – uma força-tarefa criada por cientistas paulistas para combater a epidemia do vírus transmitido pelo Aedes aegypti -, o pesquisador Paolo Zanotto, da Universidade de São Paulo (USP), afirmou que, para pesquisadores envolvidos com estudos sobre o vírus, já não havia mais dúvidas sobre a relação causal com a microcefalia.

“O CDC se baseou em uma série de estudos que já foram publicados ou estão em vias de publicação. Há uma grande massa de evidências comprovando que a relação entre o vírus e a microcefalia está muito bem estabelecida. É muito saudável que o CDC a tenha endossado”, disse Zanotto ao Estado.

Segundo Zanotto, o relatório da agência facilitará a resposta das autoridades de saúde dos Estados Unidos a uma iminente epidemia de zika. “Os americanos estão em uma situação de pré-surto, com uma pressão muito grande nas fronteiras, já que há muitos casos de zika em países do Caribe e da América Central. Ao dissipar qualquer dúvida sobre a relação causal, o CDC vai justificar investimentos para tomar medidas necessárias, conseguindo apoio popular, jurídico e legislativo.”

Para o professor de Virologia da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp) Maurício Lacerda Nogueira, a divulgação feita pelo CDC é importante para esclarecer a população sobre a relação entre o vírus e a má-formação, reduzindo a disseminação de boatos. “Isso coloca um ponto final nas teorias conspiratórias, porque é uma relação que existe e é um fenômeno que está acontecendo há seis meses”, disse.

Segundo Nogueira, o relatório mostrou que houve uma resposta rápida da ciência brasileira, que já “estava na faixa de certeza de 99,9%” sobre a relação, com base em estudos que descobriram o vírus em crianças e no líquido amniótico.

O professor disse também que há questões relevantes que precisam ser respondidas. “Faltam dados epidemiológicos importantes. Precisamos saber o fator de risco, quais são os outros potenciais cofatores e, o mais importante, quantas mulheres com zika terão o bebê com microcefalia”, afirmou.

Critérios. O relatório do CDC destaca que não houve uma prova única de que a infecção por zika causa a microcefalia. Foi possível, porém, estabelecer a conexão com base nos chamados “critérios de Shepard”, um conjunto de sete regras – criado em 1994 pelo pediatra Thomas Shepard – que diz se um determinado fator está causando defeitos congênitos.

O primeiro critério determina que a exposição ao agente causador deve acontecer em momento crítico do desenvolvimento fetal – o que foi atestado pelo grande número de mulheres que contraíram zika e tiveram filhos com má-formação. O segundo critério exige que pelo menos dois estudos epidemiológicos de alta qualidade apoiem a associação – e foi confirmado com a contribuição de estudos brasileiros.

O terceiro e o quarto critérios foram preenchidos: um claro delineamento de casos clínicos com um defeito congênito específico e uma associação entre uma exposição rara e um defeito congênito raro. Como os outros três critérios restantes não são considerados essenciais, a relação entre vírus e microcefalia foi considerada confirmada.

‘Faltava a formalização’, diz governo

O diretor de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Cláudio Maierovitch, não tinha dúvidas de que em breve a relação entre zika e microcefalia seria reconhecida. Para ele, o sinal de que a confirmação não tardaria partiu da própria Organização Mundial da Saúde (OMS). Em março, a diretoria do organismo internacional já havia indicado um consenso sobre a associação, que começou a ser feita no Brasil em outubro, depois de identificado o espantoso aumento de nascimento de bebês com a má-formação.

“Faltava a formalização. As recomendações dos EUA, por exemplo, para que gestantes evitassem viajar para locais com transmissão de zika, já demonstravam que o risco era considerado plausível”, observou.

Maierovitch considera que estudos conduzidos no Brasil em parceria com o CDC ajudaram a reforçar a tese. São três: em Pernambuco, na Paraíba e na Bahia. Resultados preliminares de dois trabalhos já indicavam a forte relação entre zika e a síndrome em bebês. O diretor avalia que o reconhecimento não deve mudar de forma significativa o que já vem sendo feito. “Todas as medidas de prevenção já eram movidas pela crença de que a transmissão do vírus zika tem potencial para provocar a má-formação no bebê.”

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