Para ser boa, cirurgia com robô depende de bom médico

Fonte: Folha de S. Paulo – 06/08/2016

Por Miguel Srougi*

O passar dos anos é acompanhado de tamanha deterioração dos nossos genes que se fosse dada ao homem idoso a facilidade de se reproduzir, seriam gerados seres altamente imperfeitos.

Talvez por isso, a pressão evolutiva e/ou Deus (na ordem ou exclusividade que você preferir) tenham criado um mecanismo impiedoso para conter as diabruras do homem maduro: o câncer da próstata. A moléstia atinge 11% daqueles com 60 anos e 100% daqueles que chegam aos 100. Afinal, atingido pelo problema, nenhum homem conseguirá se reproduzir e gerar seres infelizes.

Além do desconforto de viverem ameaçados, uma angustia bem maior permeia a mente dos homens portadores de câncer da próstata.

A prostatectomia radical representa o método mais eficiente para tratar os tumores iniciais e apesar de proporcionar elevadas taxas de cura, produz impotência sexual em 15% dos homens com menos de 55 anos, em 50% dos indivíduos com 65 anos e em 80% dos pacientes com mais de 70 anos. Ademais, acompanha-se de perdas urinárias molestas em 3% a 15% dos pacientes operados.

Conscientes dos inconvenientes, alguns cirurgiões propuseram uma nova técnica para executar a cirurgia radical: as intervenções auxiliadas por um robô, conhecido como Da Vinci, e executadas através de seis orifícios, sem incisão abdominal.

Publicações iniciais carregadas de certo viés, por ardor ingênuo –ou nem tanto– dos advogados da técnica, sugeriam uma remoção mais segura do tumor e menor risco de lesão dos nervos e músculos situados em torno da próstata. Em decorrência estaria “quase garantida” a preservação da potência sexual e perfeito controle da micção. Essas ideias fizeram com que em alguns países ricos a maioria das cirurgias prostáticas fosse executada com robô.

 

CONTAS

Num exemplo alegórico desse viés, um dos mais respeitados cirurgiões robóticos dos EUA, em estudo publicado no “European Urology”, concluiu que 89,8% dos pacientes estavam potentes um ano após a prostatectomia robótica. Refazendo os cálculos, observei que apenas 47,6% dos 626 pacientes com potência sexual prévia normal a preservaram após a intervenção, número longe de ser superior ao observado com as intervenções abertas.

Essa nova tecnologia suscitou algumas questões até hoje mal respondidas. O aprendizado da cirurgia robótica é demorado e beira os limites do aceitável eticamente, já que a proficiência do operador só é alcançada após 250-350 intervenções. Até que se atinja esse patamar, as cirurgias são envolvidas por complicações frequentes, às vezes graves. Nesse rastro, firmas de advocacia passaram a oferecer seus préstimos em sites emblemáticos, como o badrobotsurgery.com!

Outra questão é o elevado custo de aquisição e de manutenção desse procedimento, da ordem, respectivamente, de mais U$ 3 milhões e de mais de U$ 300 mil dólares anuais. Valores utópicos para oferecer a técnica a uma nação com a saúde devastada e com prioridades elementares inatingíveis para sua população –e também mais onerosa para quem se dispõe a realizá-la sem patrocínio.

A ideia de maior preservação das funções sexual e urinária com a intervenção robótica também se mostra, agora, falaciosa. Na última semana foram divulgados os resultados preliminares do primeiro estudo mundial, de alto nível de evidência científica, comparando a prostatectomia aberta e robótica.

Nessa pesquisa, publicada na revista “The Lancet” e realizada por investigadores australianos, foram avaliados 308 pacientes aleatoriamente tratados com uma das duas técnicas. Os resultados foram iguais quanto à preservação da função sexual e aos riscos de descontrole urinário ou de complicações pós-operatórias, conforme mostrado em reportagem da Folha.

 

CONSENSO

Esses dados reforçam uma ideia consensual que tem prosperado entre especialistas: o sucesso da prostatectomia radical está mais ligado à experiência do cirurgião e menos ao método cirúrgico utilizado. De outra forma: mais importante do que a técnica escolhida é o técnico envolvido.

O que fica claro nessa discussão é que os especialistas da área têm divergências que não são apenas semânticas Tentando resumir meus sentimentos em relação às cirurgias auxiliadas por robôs, penso que elas se imporão no futuro, pelo aperfeiçoamento dos sistemas robóticos, que ainda falham por não oferecerem sensação táctil ao cirurgião, pela atração que as técnicas high tech exercem sobre a mente humana e pelo barateamento desses equipamentos.

Enquanto isso não se concretiza, gostaria de lembrar as observações feitas pelo grupo de Florian Schroeck, da Universidade Duke, nos EUA. Entrevistando pacientes submetidos à prostatectomia radical, constataram que lamentações pela opção adotada foram quatro vezes mais frequentes entre os escolheram a técnica robótica, principalmente porque foram criadas expectativas irreais.

Por esse motivo, um médico só exercerá com grandeza o seu papel de guardião do corpo e da alma se, tanto na saída como na chegada, levar em conta não apenas a doença, mas também os sentimentos e as aflições que envolvem seus pacientes.

Médicos e doentes, num certo conluio durante a travessia, devem estabelecer relações envolvidas por respeito, compaixão e sinceridade, tornando o percurso mais suportável para esses pacientes. Realidade que Riobaldo, o jagunço filósofo de Guimarães Rosa, sabia muito bem como descortinar: “Digo, o real não está na saída ou na chegada, ele se dispõe para a gente no meio da travessia.”

* MIGUEL SROUGI, 69, médico, pós-graduado em urologia pela Harvard Medical School (EUA), é professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da USP e presidente do Conselho do Instituto Criança é Vida

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