Zika e chicungunha, uma nova ameaça

Fonte: O Globo – 04/05/2016

Os custos diretos de saúde com os pacientes e os indiretos com perda de força de trabalho e manutenção de incapacitados devem atingir bilhões de reais

Por Eduardo Côrtes*

Desde a Antiguidade, há surtos de epidemias. Na Idade Média ocorreu a mais devastadora de todas, a peste bubônica ou “morte negra”. Aparecendo na China por volta de 1330, em 1347 chegou à Itália e, em 1353, já estava em toda a Europa. Estima-se de 75 a 200 milhões de mortes, e somente no século XVII a população europeia atingiu os níveis da fase pré-peste. De 1918 a 1920 a “gripe espanhola”, a primeira das pandemias do H1N1, dizimou de 50 a 100 milhões de pessoas. A melhoria das condições sociais e econômicas e o avanço da ciência do século XX trouxeram mais segurança às populações em relação às epidemias. Esse fugaz alívio foi quebrado pelo aparecimento da Aids nos anos 1980, que destruía o sistema imunológico e causou milhões de mortes. Como em 1980 a ciência já estava adiantada, em tempo recorde foram desenvolvidos os medicamentos que controlaram a doença.

Agora enfrentamos a epidemia de zika e a chicungunha. Ainda não se sabe muito sobre esses vírus, mas originaram-se na África e são transmitidos pelo Aedes aegypti e pelo sexo, entre outros. Seus efeitos são devastadores: microcefalia, Guillain-Barré, com paralisia muscular e respiratória, problemas articulares e outras complicações.

A epidemia causará impacto social e econômico. Crianças com microcefalia necessitarão de cuidados que poderão durar mais de 30, 40 anos. O problema articular da chicungunha poderá incapacitar para o trabalho e durar 36 meses. Os custos diretos de saúde com os pacientes e os indiretos com perda de força de trabalho e manutenção de incapacitados devem atingir bilhões de reais.

Na Aids e no H1N1, os países ricos foram acometidos e gastaram bilhões em pesquisas, e nós aproveitamos esses resultados. A epidemia de zika e chicungunha, no entanto, não está os atingindo, pois os mosquitos sobrevivem menos nas regiões temperadas, e eles não estão financiando a doença. Mas não teremos êxito se não tivermos informações, e o Brasil terá de investir em pesquisas. Não enfrentaremos esse problema sem dados, com improvisações.

Temos de conhecer bem a transmissão do vírus, validar métodos diagnósticos e compreender sua evolução clínica. Não podemos deixar situação tão grave à mercê dos acontecimentos. Haverá necessidade de organizar uma rede de atendimento e treinar profissionais rapidamente. A universidade brasileira tem de participar ativamente. No Hospital do Fundão, da UFRJ, acabamos de criar um Centro de Pesquisa Clínica da Zika e Chicungunha e estamos adequando instalações para atendimento de enfermos. Para isso, precisaremos aumentar a capacidade de leitos e contratar mais profissionais. O enfrentamento dessa epidemia necessita de um esforço amplo do governo.
O Congresso Nacional também precisa se envolver. Sabemos que passamos por enorme crise política e econômica, mas nessa hora difícil temos de nos superar. Não há outra saída.

*Eduardo Côrtes é diretor-geral do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho

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